ESPERA E ESPERANÇA
Amanhece. Manto enrolado na cabeça, abro a janela. A covardia do sol permite o livre passeio
do minuano, da garoa gelada. Anteontem três graus centígrados, ontem 2 graus e hoje, apenas
um grau.
Nos olhares de mútua cumplicidade das pessoas, a silenciosa interrogação - que é isso? Onde
vai para esta invernia?
Ah... A reflexão que nunca me dá tréguas se instala em mim em irredutível provocação. Sei.
Foi-se o calor do verão. O vento varreu as vermelhas folhas do outono e as ilusões. O tempo de
espera quer substituir a esperança. Quem me dera não desmaiem minhas utopias como
desmaiam as plantas gemendo de frio.
As crianças passam para a escola em alarido costumeiro, boca fumegando, nariz vermelho
escorrendo, mãozinhas geladas. Mesmo assim bem melhor que aquelas lá longe, onde é verão,
mas estão separadas dos pais, confinadas em gaiolas.
Acendo o fogo na lareira. Mesmo assim, meu cachorro continua a tremer de frio; em pedido
de socorro, com força, consegue empurrar a poltrona onde me sento para escrever.
Compadeço-me e, imediatamente, construo uma roupa para ele. Visto o Maximiliano – Max
para os íntimos – que me olha agradecido.
Detenho-me a observar as chamas na lareira e lembro que nossos antepassados, os indígenas,
em volta às fogueiras, rodas de fogo, aqueciam-se e aqueciam as ideias, dialogavam, tomavam
decisões coletivamente, ensinavam ética, respeito à mãe natureza, preservação de sua cultura.
Hoje, em volta às labaredas da lareira é o lugar do silêncio. Movimentos raros nas bocas.
Quando uma pergunta surge, dificilmente uma resposta se ouve. O único movimento é das
mãos. É mais cômodo tornar os ausentes presentes e os presentes ausentes.
Lá fora, sei que as ovelhinhas, mesmo cobertas de lã, padecem. Os porquinhos se amontoam
para se aquecerem mutuamente. A gadaria abandona coxilhas e colinas para proteger-se nos
matos e baixadas. Os pintinhos se refugiam sob a galinha, mãe acolhedora.
As nuvens galopam e o céu vai se abrindo aos poucos. Vê-se a lua buscar a companhia das
estrelas, enquanto humanos dormem ao relento.
Abrem-se as cortinas do dia. Abro as cortinas da janela. A garoa cessa. A cerração baixa. O fio
de luz, à frente de minha casa, é um colar de contas de cristal. Nele, pombo e pomba pousam
seus pezinhos. Sacodem a plumagem e secam-se. O pombo, elegante, começa o cortejo à
pomba, fazendo-lhe carinhos com o bico. A pombinha faz-se de rogada. Depois de repetido
cortejo, o pombo salta sobre ela. É a vida que se reinicia em pura poesia.
Encorajo-me. Abro a porta e olho o jardim. Extasiada, vejo um cacho de resistentes rosas
rubras, pura púrpura, verdadeiro veludo, que não se aniquilaram sob as agruras do tempo e,
ali, enfrentam o frio para enfeitar a vida, pois depois da invernia, sempre virá a primavera e,
com ela, o cio da terra, para que tudo rebrote.
Eis que a espera será, então, substituída pela esperança, que sempre há de brotar no coração,
dourar os dias, diminuir as noites longas, chamar as cigarras e suas cantilenas.
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