09/08/2018 às 14:45
DENTRO DAS CASAS

 

Na minha juventude, quando caminhava por uma rua qualquer, de qualquer cidade, costumava observar as casas em todos os seus detalhes, tanto as casas vistosas do centro, quanto as modestas casas da periferia, a rica arquitetura e sua ausência, o colorido das paredes e as pseudoparedes. Não sei o porquê, mas sempre me ocorria a mesma interrogação sobre os moradores: São felizes? Quem sabe que felizes?! Ou tristes?

Hoje, continuo contemplando as mesmas casas e outras tantas, mas minhas perguntas multiplicam-se: Dentro dessas casas, o que há? Quem as habita? Para quem se abrem e se fecham suas portas? Quanto aconchego e quanta prisão lá dentro? Que dores, amores, cores, plateia, atores? Lideranças, alienações, martírios, delírios? Quanto carinho lá dentro delas? Quanta violência lá dentro delas? Quanto diálogo? Quanta solidão? Quanta humildade e quanta soberba? Quanta ventura e desventura? Quanto facho de luar penetrando telhados a desenhar estrelas no chão? Quantos são felizes e quantos nem o sabem ser e tantos que nem sabem que são? Quantos enxergam o que se passa dentro de suas casas, dentro das vidas suas, dentro de si mesmos? Quantos conseguem ver além do próprio umbigo?

Interessante, como é da vida olharmos tanto para a vida dos outros e olharmos tão pouco para a vida da gente mesmo! De repente, torno-me arqueiro, flecha e alvo de mim mesma - reflexiva, pergunto-me: E eu sou feliz? Encolho-me reminiscente. A juventude vai longe. Na alma, no corpo, cicatrizes. Músicas, poemas, lembranças, tudo triste. O céu nublado, o vento frio, os filhos longe, os amigos a ostentar ou lamuriar. Que motivos tenho para ser feliz? E para ser triste?

Saio pra fora de mim... Olho dois meninos passarem de mãos dadas e encho-me de piedade. Piedade infinita, não porque não possam ser felizes, mas pelo preconceito que os espera vida a fora. Assim também me ocorre quando vejo pessoas negras, pois sei não ser fácil enfrentar o preconceito aberto ou velado no dia a dia.

Mil viagens feitas a lugar algum... Todas as casas e casebres da alma revisitados... Reconheço as tantas razões de alegria e felicidade. Recomponho-me. Envergonho-me de minha pequenez e do luxo da tristeza. Suspiro minhas poucas certezas, minhas incertezas tantas, os pedaços meus, as paixões e os amores, e me faço outra vez inteira. Aprendi com Cazuza: “Decidi não ficar mais triste. Certas coisas não valem a minha dor”. É com as coisas desagradáveis que aprendemos o que temos de aprender. Viver a vida ou morrer a vida é uma opção nossa. Nossa vida nada mais é que não tessituras nossas, escolhas nossas. A ninguém devemos dar o direito de roubar nossa paz e nossa alegria.

Entre penhascos e jardins, escolho os jardins. O cacho de robustas rosas rubras, verdadeiro veludo, durou vinte dias, o caule vergado, a vida enfeitada, para enfim despetalar-se, como é da vida. E agora? Agora vou dar nova roupagem à nova estação: vou plantar flores e esperar a primavera, sem deixar de perscrutar o que habita dentro das casas e selecionar o que pode entrar dentro da casa do meu eu e habitar-me.

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