GUIOMAR TERRA BATÚ DOS SANTOS
Letra: Apparício Silva Rillo
Música: Pedro Marques Ortaça
Rio Grande, berro de touro,
Quatro patas de cavalo.
Quem não viveu este tempo,
Vive este tempo ao cantá-lo.
E eu canto porque me agrada
Neste meu timbre de galo.
É verdade que alguns dizem
Que os tempos hoje são outros,
Que o campo é quase a cidade,
E os chiripás estão rotos,
Que as esporas silenciaram
Na carne morta dos potros.
Cada um diz o que pensa,
Isso aprendi de infância,
Mas nunca esqueça o herege
Que as cidades de importância
Se ergueram nos alicerces
Dos fortins e da estâncias.
Não esqueça, de outra parte,
Para honrar a descendência
Que tudo aquilo que muda
Muda só nas aparências
E até no bronze das praças
Vive a raiz da querência.
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Eu nasci no tempo errado,
Ou andei muito depressa,
Dei ô de casa em tapera,
Fiquei devendo promessa,
Mas se eu pudesse eu voltava
Pra onde o Rio Grande começa.
Timbre de Galo, grande sucesso na voz de Pedro Ortaça, é quase um hino do RS. A letra é uma das tantas pérolas do grande poeta, folclorista e escritor Silva Rillo, são-borjense, autor de 23 livros de poesia, mais de 300 poemas musicados. São suas as conhecidas obras Rapa de Tacho I, II e III, fundador do grupo Os Angueras e idealizador do Festival da Barranca.
Pedro Ortaça, grande ícone do nativismo, nasceu no Pontão Santa Maria, em 1942. Em 1977, foi sua primeira gravação. Hoje, são 13 CDs e um DVD gravados. Centenas de shows no Brasil e em outros países. Entre vários títulos e premiações recebidas, merece destaque a distinção MESTRE DAS CULTURAS POPULARES, que lhe foi concedida pelo MIC, em 2008.
Na trajetória artística de Pedro Ortaça, é nítido o ideário de cantar o povo missioneiro, sua identidade, origem e memória, além de denunciar a realidade dos mais pobres, dos índios, dos negros, dos injustiçados, sempre no estilo missioneiro, na voz, o timbre dos galos, nas cordas do violão, os sinos das catedrais.
O poema em pauta, inicia-se pela caracterização do Rio Grande de outrora, a presença do gado e do cavalo, a economia pastoril. Tudo na visão imponente como “berro de touro”, e exuberante como o gaúcho em seu cavalo. Na sequência, o autor responde àqueles que criticam o canto nativo, olhando-o apenas pelo viés do saudosismo, “que os tempos hoje são outros”, mas que as cidades se ergueram nos fortins e nas estâncias. As praças são marcadas pelo bronze das placas, dos bustos, das estátuas dos antepassados, as raízes.
As mudanças não são tão profundas assim, são apenas nas aparências e algumas para pior. Há um estado de inconformismo do poeta: “eu nasci em tempo errado”, encontrei catedrais taperas (não pude pagar promessas), aldeias abandonadas. Se eu pudesse, eu voltava para o Rio Grande de outros tempos.
O galo e sua crista alta e vermelha, é chama vigilante. Se o galo não canta, o dia não vem, não vem a luz, o sol não nasce, a vida não brilha. Que tenhamos muitos cantos de Pedro Ortaça em seu timbre de galo, para chamar o sol, iluminar o dia, trazer esperança, acordar os que dormem, cantar hoje o ontem para construir o novo amanhã, colorindo esta pátria colorada herdada dos guaranis.
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