Letra: Luiz Alberto Simões Pires
Música: Gilmar Martinelli, Jorge Guedes
A imponência missioneira
Ficou gravada na história
E as trilhas do mato grande
Bem vivas em nossa memória.
A ideia de progresso
Aos poucos tudo consome
A natureza sucumbe
Frente a ganância do homem.
Foi a golpe de machado
Que tombaram o mato inteiro
Virou cinza nas coivaras
Nosso mato missioneiro.
A velha estrada de ferro
Construída a aço e fogo
Hoje está abandonada
Seguindo as regras do jogo.
Nesta triste realidade
O mato grande sumiu
Hoje não resta mais nada
Nem nas barrancas do rio.
O poema-letra é uma bela inspiração de Luiz Pires, poeta do vizinho município de Giruá, que se destaca no meio nativista gaúcho. A música é de Gilmar Martinelli e Jorge Procópio Ferreira Guedes e integra seu CD Sem Tinta.
Jorge Guedes, grande artista são-luizense, 58 anos, dispensa apresentações, graças a popularidade e genialidade dele e do elenco que o acompanha. Marcam sua trajetória, grande quantidade de shows realizados dentro e fora do País, inúmeras premiações recebidas, oito CDs gravados e a saudade que deixou do Encontro de Chamameceiros.
NAS TRILHAS DO MATO GRANDE é um poema com perfeita comunhão de ritmo, melodia, conteúdo imagético e significação, com um universo cingido a partir da vivência do autor, tendo como aporte a teoria da percepção – o olhar o seu entorno, o sentir, descrever e partilhar a emoção – no caso, a indignação e a tristeza.
A indignação se dá ao lembrar o tudo e encontrar o nada. Indignação e tristeza expressa em vocábulos significativos da ruina, da derrota como: “tombou, consumida, sucumbiu” aos golpes de machado com a metamorfose da vida a morte, do verde às cinzas.
A mão humana, em crime contra a humanidade, comandou os golpes do machado a ecoar na floresta e o rufar das árvores ao tombar sobre a terra mãe. A mão humana ateou fogo para livrar a terra do entulho da madeira, fazer a limpeza (coivara) e transformar a terra em lavoura produtiva. Resultado é limpeza completa: árvores, vegetação, animais, tudo a se consumir. O progresso pediu espaço, progrediu a destruição. Depois do machado, as motosserras, a necessária madeira aos fornos das indústrias, as pequenas lavouras dando lugar ao latifúndio e “Hoje não resta mais nada, nem nas barrancas do rio”.
Onde esse flagelo? Em qual continente? Nas trilhas do mato grande? Nos versos do poeta? Está nos versos do poeta porque está nas trilhas do mato grande, e assim verossímil, e assim plurissignificativo, e como arte, universaliza a realidade da natureza maltratada, do extermínio das matas, dos índios, da flora, da fauna. Está nos versos dos poetas e dos cantores indignados e comprometidos com as causas sociais, pois são os seus cantos que podem subverter a realidade, para que a grande mãe terra, a Gaia, possa continuar abrigando a vida, quando a ação humana é constante ameaça a um futuro de esperança.
Entende Leonardo Boff que “Só novas mentes e novos corações gestarão outro futuro”. O modismo da economia verde, não salvará nem a terra e nem a nós mesmos. O que pode nos salvar são nossas atitudes onde quer que estejamos.
Que os poetas continuem encontrando guarida aos seus versos na voz de Jorge Guedes e família. Que estas vozes, seu canto forte, altivo, irreverente continuem a cantar nosso povo, nossa cultura, nossa realidade. Que o novo CD “Pra entender quem canta assim” tenha muito sucesso! Muito sucesso também ao Luiz Pires e ao Martinelli.
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