Autor: Aureliano de Figueiredo Pinto (1898-1959)
Não sei por que nesta noite
O sonho velho cebruno
Ergueu a clina e se foi!
E eu que arrelie ou me zangue. (...)
Então, da marquesa salto
E vou direto ao galpão:
Bato tição com tição
E a lavareda clareia
Os caibros do galpão alto.
Já a cuia bem enxaguada,
Corto um cigarro daqueles
De reacender vinte vezes
Num trote de quatro léguas. (...)
E quando a chaleira chia,
Principio um chimarrão,
Mais verde e mais topetudo
Do que um mate de barão.
Um galo – o cochincho mestre!
O laço desenrodilha.
E fica só com a presilha
Do laço de um canto largo.
E os outrosgalos-piazitos
Vão atirando os lacitos.
E até um garnisécargoso
Vai reboleando orgulhoso
O soveuzinho feioso
Feito de couro com pelo.
Nem relincham os cavalos!
Com brilho de ponte-suelas,
Lá em riba estão as estrelas!
Cá em baixo os cantos dos galos.
A estrela d’alva trabalha
Na imensidão da hora morta:
Sobre a prata de um punhal
Que ainda há de sangrar o dia. (...)
O perro Baio-colera
Faz que cochila... E abre os olhos,
A espaços, regularmente.
E me fixa os olhos claros
Como um amigo dos raros,
Cuidando do amigo doente.
É um gosto olhar os brasidos
E o luxo das labaredas
Dançando rendas e sedas
Para a ilusão dos sentidos
E o chimarrão macanudo
Vai entrando pelo sangue!(...)
Por cheiro de madrugada.
- Potrilhos em disparada
Num Setembro de alvoroto.
Ah! Sangue velho... Descubro
Porque hoje estás de vigília:
- Dois séculos de Fronteiras,
De madrugadas campeiras,
De velhas guardas guerreiras
Bombeando pampa e coxilha!
Por isso é que hoje não dormes!
Ouviste a voz de ancestrais;
- “O chimarrão principia!
Alerta! O campo vigia!
Da meia-noite pro dia
Um taura não dorme mais...
O poeta e escritor Aureliano de Figueiredo Pinto, nasceu em Tupanciretã. Teve uma vida dedicada à medicina, atuando no município de Santiago.
Sua obra de caráter regionalista, retratava a estância onde sempre esteve sua alma. A estância era a natureza, o ser humano, os animais, a realidade social, a vida, enfim. Pode-se dizer que Aureliano é o pai do Nativismo gaúcho, com uma produção marcada pela sensibilidade, a autenticidade e a ética. Sobre seus escritos, dizia: “maus, mas meus”. Como diz Sérgio Metz, “Ele fez, há mais de cinquenta anos atrás e muito melhor, o que se tenta agora”.
Sobre o poema em pauta, basta sorver a essência em cada palavra mágica e viajar na imagem e no sentido, e transportarmo-nos a atualidade que nos faz perder o sono. Que seus versos nos levem a bater tição com tição e, no clarão das labaredas, dançando rendas e sedas, possamos ouvir a voz de ancestrais, reagir e refazer o país, proclamar as tantas e necessárias independências.
Estamos em plena noite. “Alerta! O campo vigia! Da meia-noite pro dia, um taura não dorme mais...”.
Nenhum Comentário. Deixe o seu comentário!



Comentários