13/09/2018 às 16:39
MARQUITO MORAES

Guiomar Terra Batu dos Santos

 

Bossoroca, um município jovem, com apenas 53 anos e uma estimativa de 6.356 habitantes, chama-nos a atenção pela luta cultural que empreende através de movimentos nascidos do âmago de seu povo. Lá, faz-se presente a canção, a música, a poesia, a dança, o folclore, a arte plástica, o artesanato, como elementos propulsores de desenvolvimento econômico, social e cultural e integradores de crianças, jovens, adultos e velhos.

É um privilegiado espaço onde o matiz artístico-cultural faz menos estéreis os dias e as noites, põe sopro delicado de vida no ar, adoça o coração, constrói esperança, traz plenitude, significação e sentido à existência humana. Importante ressaltar que arte não se limita a eventos, pois está dentro das casas, dentro das escolas, tanto no meio urbano, como rural. E, é lá no meio rural, que germina a arte de Marquito. Marquito? Quem é Marquito?

Marco Antônio de Moraes é natural de Bossoroca (Timbaúva), nascido em 1962. Atualmente, mora em uma fazenda no Cerro da Boa Vista, interior de Bossoroca. Autodidata, é artesão, escultor, artista plástico, poeta, músico e compositor. Em 1998, lançou o livro “Esta terra tem dono?”. Produzida a bico de pena, sua coleção “Troncos Missioneiros”, doada ao acervo cultural Noel Guarany, recebe visitas no saguão de entrada da Prefeitura local.

No sábado, 25 de agosto, no maravilhosamente acolhedor galpão da E. E. Ensino Médio Bossoroca, Marquito fez o lançamento de sua última obra. Trata-se de um conjunto de seis peças de escultura em pau-ferro. Não poderia ser outro o material para essa obra de Marquito, que é pura essência e, pau-ferro é símbolo de essência e resistência por séculos, como são as figuras representadas que remontam aos nossos antepassados, à nossa história – os indígenas.

A escultura é uma forma de arte oriunda das mais antigas civilizações como o Egito, Roma, Pérsia e Grécia, servindo para representar pessoas, ideias, conceitos. Na arte escultórica de Marquito, há todo um enredo mítico que transita do sonho à concretude. Como ele mesmo relata, ele visualiza dentro da madeira o ser que habita seu imaginário e deseja materializar. Caso fitar a madeira e dentro dela não visualizar a imagem, desfaz-se da madeira e sai à procura de outra. A partir daí, mãos a obra: agora é sensibilidade, espírito, conhecimento, vínculo à ancestralidade, tudo misturado à mão de ferro para dar formas delicadas ao duro material.

Pode-se dizer que cada peça esculpida é uma metáfora extrínseca que traz dentro de si, intrinsecamente, o significado criado pela imagem. Cada obra carrega consigo um conceito, uma história, uma ideia, uma fagulha, um canto e um conto, um marco de caminho percorrido, um marco de um caminho a percorrer e um marco a ser alcançado, pois é história, é dor, é orgulho, é afeto e é anseio.

São seis obras de uma única origem – SEPÉ TIARAJU está entalhado dentro da madeira, presente no interior, dentro da alma das ruínas missioneiras, em permanente estado de guerra e resistência; ANDRÉS GUACURARI tem a mão direita no coração e o braço esquerdo grande, forte, punho cerrado para defender o povo de todos os tipos de agressões; ANAHY, figura entre a elegância e a força, a delicadeza e a coragem da mulher para reconstruir sempre, em cima de qualquer ruina; NHEÇU é uma imagem simplesmente arrebatadora, seus olhos faíscam, sua expressão de dor é impulso à luta; NICOLAU NEENGUIRÚ é o pensador que nos convida a matear, e com ele, sorver da sabedoria, da ponderação e da união das tribos e quiçá dos povos; YBYRAITÁ é um índio charrua nascido de sonho e imaginação do autor. É o simbolismo do que há de vir. De um outro futuro, sem contudo, permitir que se abandonem as raízes.

Muito mais a dizer e mais nada a dizer, quando palavras não definem profundezas. Admirar a arte e valorizar o artista é o que se pode fazer. Entender...somente vendo com os olhos do coração e viajar por infinitas leituras. Mil vidas e mil sonhos ao Marquito que nos faz também sonhar! Parabéns!

 

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