Poncho molhado, o olhar na tropa e no horizonte
Vai o tropeiro, devagar, estrada afora.
A chuva encharca, está chovendo, desde ontonte
Dói dentro d’alma esta demora.
Irmão do gado ele se sente nesta hora
E o seu destino, também vai, neste reponte.
Igual a tropa, neste tranco, estrada afora
Sempre encharcado de horizonte.
A tropa segue, devagar, mugindo tonta
Talvez pressinta que seu fim é o matadouro
E o tropeiro, entristecido, se dá conta:
O boi é bicho, mas tem alma sob o couro.
O boi é bicho, mas tem alma sob o couro.
JOSÉ HILÁRIO AJALLA RETAMOZO (1940-2004), autor do poema letra em pauta, natural de São Borja, um dos maiores nomes do nativismo gaúcho, é o autor do HINO DO MUNICÍPIO DE SÃO LUIZ GONZAGA; membro da Academia Rio-grandense de Letras, tem mais de trinta mil livros distribuídos, centenas de troféus e premiações em Festivais Nativistas de renome.
Incorporada ao regionalismo gaúcho, sua produção literária se distancia da composição xucra, pela densidade lírica e o requinte da linguagem. Retamozo consegue, condensando linguagem e conteúdo, introjetar sentimento no verso e verso e sentimento no leitor.
A música PONCHO MOLHADO é sucesso de longa data. Aliás, justo e merecido sucesso, tanto pela maravilhosa letra, quanto pela enlace perfeito da melodia criada por EWERTON FERREIRA, grande músico, que magicamente sorve e expressa sentido e sentimento do eu lírico do autor, num cantar que se arrasta nostálgico.
A letra é um poema narrativo descritivo, onde o leitor vai se embrenhando na metáfora, no dueto homem-bicho, nostalgia-reflexão, comparação-conclusão, assim desfilam o espaço, o tempo, a ação, as personagens.
O espaço é campesino: Vai “estrada afora”. O tempo é adverso, chove há três dias enquanto a tropa segue: “está chovendo desde ontonte”, “A chuva encharca”. A ação é longa e lenta:“A tropa segue devagar”, “ Vai o tropeiro devagar”, “igual a tropa neste tranco”. As personagens e elementos são um misto de homem, boi, tropa, poncho molhado, chuva que encharca, luz nenhuma, horizonte como fim e não como perspectiva. Sentimento de desolação “dói dentro d’alma”, “irmão do gado ele se sente”, “o tropeiro entristecido se dá conta”, “O boi é bicho, mas tem alma sob o couro”.
E o poncho, o poncho molhado. O poncho já não é vestimenta elegante. O poncho de lã tradicional, tecido no tear, já não protege do vento. O homem é alma sob o poncho molhado. O boi é alma sob o couro molhado – seu poncho.
Ao dar título ao poema - PONCHO MOLHADO – o autor já, intrinsecamente, define o tema: a realidade do tropeiro, do peão, do homem gaúcho na luta pela vida e pela sobrevivência, pois o poncho molhado deixa de ser uma proteção para tornar-se um fardo. O poncho molhado é a metáfora da vida. Na tropeada a identificação do tropeiro com o próprio boi, pois seu destino também vai neste reponte, e o destino é o mesmo: o fim, o matadouro.
Contudo, o humano ser conduz a tropa e tem protagonismo para traçar caminhos, mudar rumos das gentes e dos bichos, com olhar humano para todas as gentes e todos os bichos, que todos têm alma sob ponchos ou couros.
Que venham muitos sóis para enxugar nossos ponchos molhados!
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