05/04/2019 às 17:11
VETERANO

 

 

Letra: Antônio Augusto Ferreira

Música: Ewerton Ferreira
 
Está findando o meu tempo,
A tarde encerra mais cedo,
Meu mundo ficou pequeno
E eu sou menor do que penso.
 
O bagual tá mais ligeiro,
O braço fraqueja às vezes,
Demoro mais do que quero,
Mas alço a perna sem medo.
 
Encilho o cavalo manso.
Mas boto o laço nos tentos,
Se força falta no braço,
Na coragem me sustento.
 
Se lembro o tempo de quebra,
A vida volta pra trás.
Sou bagual que não se entrega
Assim no mais.
 
Nas manhãs de primavera,
Quando vou parar rodeio,
Sou menino de alma leve
Voando sobre os pelegos.
 
Se desencilho, o pelego
Cai no banco onde me sento,
Agua quente e erva buena
Para matear em silêncio.
 
Neste fogo onde me aquento,
Remoo as coisas que penso,
Repasso o que tenho feito
Para ver o que mereço.
 
Quando chegar meu inverno,
Que me vem branqueando o cerro,
Vai me encontrar venta-aberta
De coração estreleiro.
 
Mui carregado de sonhos
Que habitam o meu peito
E que irão morar comigo
No meu novo paradeiro.
 
 
O autor do poema-letra em pauta, Antônio A. Ferreira, natural de São Sepé (1935-2008), está entre os mais destacados poetas do cancioneiro gaúcho.
VETERANO, música que conquistou a Calhandra de Ouro na 10ª Califórnia da Canção de Uruguaiana, em 1980, foi musicada por Ewerton Ferreira, talentoso artista, sobrinho de Antônio Augusto Ferreira, residente em Porto Alegre.
 
Ao usar como título a expressão “veterano”, o autor já define sobre o que versará: a velhice, a experiência, maturidade. Um eu lírico confessional domina o poema. O veterano constata a velhice, percebe-se velho e define o drama com que se depara: “meu mundo ficou pequeno”. E é assim mesmo na velhice: as relações sociais mirram, se apoucam, passam a constituir-se apenas no convívio com os mais íntimos e poucos familiares, um mundo pequeno; se sonhos e desejos sobejam, já não estão ao alcance “sou menor do que penso”.
 
Mesmo encilhando um cavalo manso, este parece mais ligeiro; o braço já fraco, movimentos mais lentos, mas coragem e entono não lhe faltam. “Boto o laço nos tentos”, “na coragem me sustento”.
 
Na quarta estrofe retrocede no tempo, vem a lembrança da juventude “lembro o tempo de quebra”, incorpora a coragem e a valentia na expressão “bagual que não se entrega”.
 
Não há, no entanto, milagres que a primavera não realize. “Nas manhãs de primavera” volta a ser menino, alma leve a voar sobre os pelegos.
 
Ao calor do fogo, pensamentos aprofundam-se, vão e voltam recordações; o passado é posto na peneira e surge a grande interrogação: “o que mereço?”.
Conclui o poeta, que quando chegar ao fim da vida, “o meu inverno” vai encontrá-lo altivo, corajoso, afoito “venta-aberta”, de coração entre as estrelas, levando consigo todos os sonhos. Pois um veterano sabe o valor dos sonhos e a vida lhe ensinou que nunca se desiste deles enquanto se viver.
 
Bom! Muito bom e necessário chegarmos ao fim da vida com toda a experiência e sabedoria de um veterano, sem perder a coragem e a altivez. Que ao remoer nossas lembranças, encontremos coisas boas a merecer, tenhamos sabedoria para ainda sermos habitados por sonhos e esperanças, admirar as estrelas e as belezas da vida. Quem deixou de conservar sonhos, já não é um veterano, pois junto de seus sonhos, há muito feneceu. 
Veterano, meus amigos, é uma pérola do nativismo, um maravilhoso legado aos que têm ouvidos e coração para pôr-se a escuta.
 
GUIOMAR TERRA BATÚ DOS SANTOS
 
 
 
 

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