12/07/2019 às 13:53
O VASO RACHADO
Uma chinesa velha tinha dois grandes vasos, cada um suspenso na extremidade de uma vara que ela carregava nas costas.
 
Um dos vasos era rachado e o outro perfeito. Todos os dias, ela ia ao rio buscar água, e ao fim da longa caminhada do rio até a casa, o vaso perfeito chegava sempre cheio de água, enquanto o rachado chegava meio vazio.
 
Naturalmente, o vaso perfeito tinha muito orgulho do seu próprio resultado, e o pobre vaso rachado tinha vergonha de seu defeito, de conseguir fazer só a metade daquilo que deveria fazer.
 
Ao fim de dois anos, refletindo sobre sua própria derrota de ser rachado, durante o caminho para o rio, o vaso rachado disse à velha: “Tenho vergonha de mim mesmo, porque esta rachadura que tenho faz-me perder metade da água durante o caminho até sua casa”...
 
A velha sorriu: “Reparaste que lindas flores há no teu lado do caminho, somente no teu lado do caminho? Eu sempre soube do teu defeito e plantei sementes de fores, na beira da estrada, do teu lado. E, todos os dias, enquanto voltavas do rio, tu regava-as. Foi assim que, durante dois anos, pude apanhar flores para enfeitar a mesa e alegrar o meu jantar. Se tu não fosses como és, eu não teria aquelas maravilhas na minha casa”!
 
Esta parábola em sua singeleza e simplicidade, carrega a possibilidade de múltiplas reflexões e que tudo tem uma explicação, uma razão de ser sobre a terra e sob o céu.
 
Não precisamos nos encher de presunção acreditando que nossa perfeição em muitos aspectos possa nos dar o direito de fazer do defeito do outro um sacrilégio, e, até, usar esse defeito para bullying.
 
Pessoas que não servem para uma atividade, uma função, podem servir maravilhosamente em outra. É preciso ter um olhar humano, acreditar e confiar nas pessoas, pois não há capacidade maior nem menor, há capacidades diferentes. Se um vaso servia para transportar água sem derramar, as gotas que o outro vaso perdia, regava flores, enfeitava o caminho, o mundo, a casa. Isso vai ao encontro do que ensina Paulo Freire: “Não há saber mais, nem saber menos, há saberes diferentes”. Isso nos ensina a necessária humildade e respeito entre os seres.
 
Travestir-se de orgulho, julgar-se melhor que o outro é mera presunção, e há que se caminhar para a igualdade, condição “sinequa non”para um mundo de paz. Há que se rechaçar qualquer forma de discriminação; respeitar, e respeitar na prática, nas atitudes, as diferenças, as deficiências, a cor, o gênero, a orientação sexual, a religião, a expressão, a condição social, a profissão, as crianças, os jovens, os velhos...
 
Foram necessárias muitas viagens do vaso rachado para entender porque percorria os caminhos, já velho, danificado. Mas olhando as flores, compreendeu que o percurso não fora em vão. Assim somos nós - é preciso muitas viagens, muitas caminhadas, muitos voos interiores e exteriores para entendermos o significado da existência.
 
Não podemos aceitar sermos considerados pessoas de menor valor, nem considerar pessoas assim, só por falhas, defeitos, fraquezas, e, muitas vezes, um elogio a um vaso rachado pode reacender a positividade. Mesmo na velhice, precisamos nos reinventar, a cada dia, para não ficarmos jogados num canto como um vaso rachado. Pelo contrário, somos o vaso que rega flores para produzir frutos. Podemos e devemos interferir na transformação da realidade, na mudança desse mundo aviltante, dominado pela bestialidade.
 
Sem distinção entre vasos inteiros ou rachados, continuemos nossas viagens, amando as gentes, plantando sementes de esperança, regando a vida com gotas de amor, para que não sequem os corações de dor.
 
 
 
GUIOMAR TERRA BATÚ DOS SANTOS
 
 
 
 
 
 

    

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