11/03/2013 às 16:56
O poder dos tímidos

Você sofre de timidez? Caso positivo, saiba que os tímidos são poderosos. É o que diz a escritora norte-americana Susan Cain, que tem uma interessante teoria para defender o potencial dos introvertidos, revelada no livro “O poder dos tímidos”. Segundo ela, as estatísticas indicam que cerca de 80% das pessoas viveram períodos de uma timidez fortemente marcada durante a infância e a adolescência. Algumas resolveram o problema e mais de 40% continuam a se descrever como introvertidas. Bom, eu posso dizer que fui um grande tímido e hoje tiro de letra esse problema, com algumas exceções.

Alguns introvertidos conseguem ascender a posições de liderança. Quando isso ocorre, costumam ter sucesso, diz Susan Cain, cujo livro anda vendendo mais que pastel quente em quermesse, nos Estados Unidos. E ela dá exemplos: a ativista negra pelos direitos civis Rosa Parks, Eleanor Roosevelt, mulher do ex-presidente dos EUA, e o indiano Gandhi. Os três eram calados, falavam com suavidade e tiveram multidões de seguidores.

“Os introvertidos colocam-se no foco dos olhares por uma causa, não por uma necessidade narcisista. Isso é poderoso”, diz a escritora, que cita outros quietos e suas obras, como Isaac Newton e a Teoria da Gravidade, Albert Einstein e a Teoria da Relatividade, Charles Darwin e a Teoria da Evolução, Chopin e seus “Noturnos”, os escritores Marcel Proust e “Em Busca do Tempo Perdido” e J.M. Barrie e “Peter Pan”, além do desenhista Charles Schultz, criador de “Charlie Brown”, um personagem tímido pra caramba.

Chato é que passei a vida toda sem saber desse poder que eu tinha. Assim, me deparo com essa descoberta somente agora e não nos anos 50, quando era guri tímido e me identificava muito com o Charlie Brown, nas revistas que meu pai trazia de Paso de Los Libres, a cidadezinha argentina que margeia o outro lado do rio, em Uruguaiana. O Charlie era como eu, um garoto tímido, que normalmente se queixava muito para si mesmo. A timidez e a insegurança daquele personagem pareciam armar os mesmos conflitos que eu vivenciava, misturando ficção e realidade na Uruguaiana de antanho.

Li muito sobre timidez para saber como lidar com esse problema, que tem a maior incidência entre os adolescentes, de 12 a 20 anos, quando é grande a dificuldade de se expressar e conviver em grupo, como bem sei. O sucesso que consegui foi relativo, mas o Charlie Brown estava ali para me dar apoio, num tempo em que a timidez nunca foi uma qualidade ou um privilégio, como quer me convencer a Susan Cain, com seus estudos e suas estatísticas. Basta dizer que os tímidos continuam sofrendo em volta do mundo.

O que posso garantir é que nós, os introvertidos, mesmo com dificuldades em se comunicar, têm acesso a um mundo mais rico e poético, que pode passar despercebido aos mais comunicativos e extrovertidos. Como ressalta Susan Cain, os tímidos têm um universo de sensibilidade que pode originar grandes e inesquecíveis obras de arte, como nos casos das figuras notáveis citadas acima. Não é esse meu caso, mas alimento a ilusão de que algum dia eu chego lá.

Dentro desse ângulo, a timidez é antes um privilégio e é possível tirar proveito da condição de ser introvertido. Exemplos extraídos da literatura, do cinema e do teatro mostram que a interioridade e a introversão podem se tornar um mundo maravilhoso de criatividade e comunicação. Foi isso que fiz na juventude, lendo e vendo filmes às centenas, tirando disso algumas lições que me ajudaram muito. Posso dizer que ficar quieto é comigo mesmo e tudo anda às maravilhas quando ninguém inventa de me colocar no centro das atenções, o que fatalmente me obriga a dizer alguma coisa num microfone que sempre surge de repente à minha frente. Vale acentuar que microfone até hoje me faz suar frio.

Não adianta defender a tese de que um tímido só tem problemas com multidões já que duas pessoas são uma multidão para ele. Meu caso não é assim tão grave, mas até hoje evito multidões, como a dizer que o problema persiste, em menor grau, e que duas pessoas não me assustam. O que me anima é a afirmação de Susan Cain de que “os introvertidos se sentem mais vivos, com mais energia e envolvidos com a atividade que realizam quando estão em ambientes tranquilos. Os extrovertidos, ao contrário, anseiam por serem estimulados e, quando não obtêm incentivos, ficam infelizes”. Deve ser por isso que ando mais solto e alegre, nos últimos anos, lembrando que Charlie Brown continua ao meu lado, desferindo suas frases certeiras contra as ingratidões do mundo.
 

Comentários

Mais posts de Newton Alvim