13/11/2015 às 14:13
A paciência de cada dia

Chamou-me atenção o resultado de recente enquete de A NOTÍCIA, sobre a falta de paciência. Cerca de 80% dos participantes reconhecem que perdem a paciência com facilidade. Isso quer dizer que a maioria se irrita diante de situações diversas ao longo do dia. Não lembro quem escreveu que a paciência é a arte de esperar, seja lá o que for, para que tudo corra com eficiência no nosso cotidiano. De repente, sou eu mesmo que estou inventando isso, talvez para lembrar que “a literatura é a arte da paciência”, como bem frisou o escritor Milton Hatoum.
Pois escrever, gente, requer uma santa paciência, principalmente numa redação de jornal, com todos acuados pelo nervoso tique-taque de um tempo pequeno e injusto. Como tal percentual aí refere-se aos missioneiros da microrregião de São Luiz Gonzaga, seria interessante saber a quantas anda a paciência do gaúcho em geral, que, convenhamos, tem fama de pavio curto, contrabalançando com o mineiro, que dizem ser o brasileiro mais paciente, com seu mutismo e suas poucas falas.
Mas, afinal, o que anda impacientando tanto os missioneiros? Os descaminhos do governo Dilma afetando seus bolsos? O patrão que não para de fazer exigências na correria da vida que parece insana? A certeza de que ser feliz – ao menos um pouquinho - é mesmo uma utopia neste país de deserdados? A solidão deixada pelos amigos que foram levados tão cedo pela Indesejada das Gentes? Ou, enfim, a frustração de não realizar um ótimo trabalho por não amar o que faz?
Larguei o jornal, mas continuo com a literatura, essa fixação que certamente impacienta diante da tela em branco, mas sem a tirania do relógio, sem o compromisso da escrita que se faz agenda cotidiana e tarefa para ganhar a vida. Talvez eu esteja mais leve agora, por saber que o poder da paciência pode ser domado, que a grosseria pode não ter guarida em volta, que o mau-humor se extingue diante da tranquilidade de saber viver. No mais, vale dizer, na medida em que envelhecemos, o quanto aprendemos a aceitar melhor os fatos e, consequentemente, a ter paciência com tudo em volta.
Em outros tempos, poderíamos dizer aos destemperados que se mudem, no entanto os que adotam a impaciência - como os inquietos missioneiros - deveriam prever uma nova chance pela frente, no aprendizado para usufruir de dias melhores. Paciente é aquele que medita, que dá um tempo na correria pelo vil metal, adotando aquela caminhada descompromissada pela pracinha perto de casa, como este escriba faz diariamente, com a humildade de saber que sempre estamos aprendendo, com autocontrole suficiente para driblar os chatos, intransigentes e aborrecíveis.
Claro que há quem confunda humildade com paciência, como queria Gandhi, que domava a impulsividade com o controle emocional. Ser paciente, sempre contando até 10 e pensando no guru indiano, é observar com mais atenção o que ocorre em volta, no universo que se movimenta e pode nos dar motivo para uma crônica leve ou originar um sorriso de compreensão que faz bem à alma.
Ser paciente, enfim, é adotar a quietude que nos faz melhores, por nós e pelos outros. E lembre-se sempre que a falta de paciência – do jeito fácil que os missioneiros dizem que perdem - custa mais caro do que a paciência em si. No mais, seguir Gandhi – inclusive lendo sua motivadora biografia - até que é uma boa alternativa para dar sentido à vida.

 

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