07/11/2018 às 08:39
Guiomar Terra Batu dos Santos: “A Feira é a festa do livro. É o livro esperando para ser descoberto, aberto, liberto e assim libertar o leitor”.

 

A patronesse da 42ª Feira do Livro de São Luiz Gonzaga, Guiomar Terra Batu dos Santos, nos fala sobre suas vocações, as artes e, em especial, sobre a feira, que é a “festa do livro”. Confira!

 

A Notícia - Como surgiu o seu interesse pela literatura, os livros? Apareceu espontaneamente ou resultou de um desejo pessoal, isto é, decidiu desenvolver a técnica e comunicar-se pela escrita?

Guiomar – Na infância, minha mãe e meu pai, pessoas muito simples, fizeram minha iniciação literária sem o saber, ao ensinar-me quadrinhas (versos) que declamava para vizinhos, no interior. À noite, meu pai contava maravilhosas histórias que foram povoando meu imaginário. No ginásio, apaixonei-me pela contundente poesia de Castro Alves, o poeta condoreiro. Declamava poesias dele que ainda tenho na memória. O que sei é que a literatura, romances, belos textos, poemas, pensamentos, reflexões filosóficas sempre me arrebataram. O Curso de Letras me aproximou da leitura, mas não da produção textual, pois esta não era priorizada. Meu texto não é resultado de técnica – nasce naturalmente. Depois que brota, alguns recursos ajudam a melhorá-lo.

 

A Notícia - Em seu primeiro livro, foi focada sua história pessoal, a família, sua construção como pessoa. O objetivo foi mostrar que a superação é uma condição para vencer na vida?

Guiomar – A “Leveza da Bagagem” é um conjunto de textos produzidos em um longo período, histórias e vivências acumuladas – a bagagem. Nossas vivências, experiências de vida, podem resultar em aceitação, revolta, aprendizagens. Fiquei com as aprendizagens – a leveza. Quanto a vencer na vida, é algo muito complexo. Pra mim, basta o milagre de viver. O que se faz de bom e de ruim. O que aprendi e o que me foi possível ensinar. Construir-me enquanto ser que sonha com um mundo mais humano. O que vivi, o que sorri, o que chorei das minhas penas e das penas alheias que como minhas sorvi. Mas em tudo na vida há a necessária superação, principalmente das nossas próprias emoções, pretensões e fragilidades frente aos desafios cotidianos. Meus filhos são minha grande vitória.

 

A Notícia - Como professora e pela experiência pessoal, entende que a escola que temos anima os estudantes à leitura, a descobrir palavras nos dicionários, a encontrar formas escritas de expressar sentimentos, emoções, histórias pessoais?

Guiomar – Não se pode generalizar, mas a maioria das escolas não dedica esse espaço/tempo para a leitura e produção de texto. Depende do comprometimento e do entendimento do que é conteúdo para cada professor. Perde-se um tempo enorme com regras gramaticais enquanto poderiam estar lendo, sorvendo, escrevendo.

 

A Notícia - Além de trabalhar diretamente com alunos na sala de aula, foste Secretária de Educação em Bossoroca e ocupou cargo relevante na 32ª Coordenadoria Regional de Educação em São Luiz Gonzaga. Que registro deixaste nesses cargos que consideras contribuições à leitura e formação do alunado?

Guiomar – O tempo em que trabalhei com alunos foi meu melhor tempo como profissional. Na sala de aula é que a vida vibra. O aluno é movimento sincero, é diálogo, é ponto e contraponto. Lembro com saudades dos alunos que, no início, liam com dificuldade e, mais tarde, dominavam o palco num recital de poesia. Protagonismo puro. Cidadania e leitura transformada em pronúncia do mundo, da vida. Como Secretária de Educação, investi muito em sensibilização pela arte, humanização, possibilidade de construção de um mundo mais bonito. Tínhamos oficinas de teatro, poesia, artes plásticas, música, coral. Chegamos a ter, num período, mais de oitenta alunos nas oficinas de violão, gaita e teclado. (Agora deu saudade). Depois fui chefe do Setor Pedagógico da Coordenadoria de Educação de Santo Ângelo e São Luiz Gonzaga. Em Santo Ângelo, aprofundamos a análise das práticas pedagógicas e realizamos a Constituinte Escolar, num amplo espaço de participação das comunidades na escola. Criamos o Canto Livre, festival estudantil da canção. Em São Luiz Gonzaga, dedicamo-nos à Formação Continuada dos professores e funcionários. Implantamos a Reestruturação Curricular do Ensino Médio – Ensino Médio Politécnico. Participamos da Mostra da Arte Missioneira. Realizamos o Mosaico Cultural com a juventude estudantil.

 

A Notícia – Nos saraus do Instituto Histórico e Geográfico, brilhas declamando poesias. Como descobriste essa forma de comunicação?

Guiomar – Se brilho, não sei. Mas me realizo muito. É maravilhoso embrenhar-se na poesia. Descobri isso enternecendo-me na altivez do canto de Castro Alves, no cantar amargo de Fernando Pessoa e Almada Negreiros, na doce ironia de Mário Quintana, na reflexão de Carlos Drummond, no eletrizante canto declamado de Noel Guarany. Ensinei o aluno a fazer, e aprendemos uns com os outros.

 

A Notícia- Algum episódio da sua vida pessoal que ficou marcado em função de sua dedicação à literatura, à leitura, à poesia?

Guiomar - Minha filha na primeira série, respondeu à professora que quem ajudava nos temas era o pai, porque ela não queria incomodar a mãe que estava sempre lendo. Aquilo devia ser algo sério.

 

A Notícia - A Feira do Livro, que importância tem para a cidade, os estudantes e todas as pessoas?

Guiomar – A Feira é a festa do livro. É o livro esperando para ser descoberto, aberto, liberto e assim libertar o leitor. É o convite para renovação das pequenas bibliotecas de cada casa. As pessoas vão longe para participar de feiras, dão um valor enorme às feiras de outros produtos, que bom se tivessem este mesmo interesse pela Feira do Livro. Uma coisa é certa, os livros, as livrarias, os escritores não desistem do cidadão, o cidadão não pode desistir da leitura. O livro não é o supérfluo, é o essencial que quer dialogar com o leitor. Ademais, ler não é um dever, é um direito.

 

A Notícia – E as artes – todas elas – são uma forma de indicar realidades, obstáculos, indiferenças, sensação de liberdade, o infinito?

Guiomar – Ah... as artes. O que seria do mundo sem a arte?! “A gente não quer só comida. A gente quer comida, diversão e arte”. A arte é transfiguração do real. Não é o registro, é a catarse, a possibilidade de transformação pela transfiguração. É pura sensibilidade de quem a produz e de quem a recebe. Pela arte, abrem-se horizontes libertários, instala-se a alegria, ampliam-se visões de mundo, de construção de um mundo humano, onde a felicidade é possibilidade. A arte existe para não morrermos da verdade. E o que é essencial, a arte nos humaniza sendo assim, é a possibilidade da não violência.

 

A Notícia – Algo mais que queiras dizer aos nossos leitores?

Guiomar – Gratidão. Muito obrigada a todos aqueles que destinam alguns minutinhos para a leitura do nosso Jornal A Notícia, e especialmente, aos que leem minha coluna. Muito obrigada ao Jornal que tem me acolhido, dado voz ao que penso, ao que meu coração quer partilhar. Gratidão por morar nesse lugar onde a sensibilidade, a arte floresce mais que a erva daninha. Pedir que a comunidade venha para a Feira. Sem os leitores, a Feira não tem razão de ser. Gratidão pelo momento único de poder viver a Feira como patronesse.

 

Comentários

Nenhum Comentário. Deixe o seu comentário!

Mais notícias em Geral